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Para Refletir

Terror e Humor

Postado por: Junior Yapondjian em: 26/11/2015

REFLEXÕES SOBRE O ISLÃ A PARTIR DO ATENTADO CONTRA CHARLIE HEBDO


Em sete de janeiro deste ano a Europa foi surpreendida com os ataques, de extremistas muçulmanos, contra a publicação francesa Charlie Hebdo (de teor político-humorístico, criada em 1970), resultando na morte de doze pessoas – oito das vítimas trabalhavam na publicação sediada em Paris, entre estas os conhecidos cartunistas Charb e Wolinski.

O que poucos conhecem é que não há consenso no Islã a respeito da reprodução artística (desenho, pintura, cinema, teatro) do profeta Muhammad (Maomé, aportuguesando a nomenclatura árabe). Assim, há setores dentro do universo muçulmano (baseados na Sunnah) que acreditam ser pecado, uma blasfêmia, não só reproduzir a imagem do profeta como também a de qualquer ser humano. Tal proibição está fundamentada no princípio de que não devemos “imitar o trabalho de Allah” (Deus), este sim único e verdadeiro Criador.

Rememorando estes princípios fica claro que a publicação francesa ofende, com suas charges e “humor ácido”, parte do “mundo muçulmano” (que não se caracteriza pela homogeneidade). Lembrando, a ofensa por si mesma jamais justificará a resposta violenta e assassina despendida pelos irmãos Kouachi, franceses filhos de argelinos, que armados realizaram os ataques dentro da Charlie Hebdo.

O atentado também resgata o debate público sobre os possíveis limites do humor, definindo afinal o que é humor do que é ofensa e discriminação. A liberdade de expressão é um princípio clássico das democracias ocidentais, contudo mesmo este princípio perde legitimidade quando agride. E os alvos do humor costumam ser as minorias e as diferenças presentes na dinâmica social (todos tornados estereótipos). Os muçulmanos são parte, diferenciada e crescente, da sociedade francesa (que tem a maior comunidade muçulmana da Europa – vide a ocupação argelina e a penetração de comunidades africanas em território francês) e deveriam ser respeitados nas suas idiossincrasias.

Não foi a primeira vez que o trabalho de cartunistas transformou-se em alvo de ataques ou ameaças de grupos radicais islâmicos, e a própria Charlie Hebdo já era alvo de extremistas quando em 2011 foi atacada com coquetéis molotov, incendiando parte da sede da revista, localizada na parte leste de Paris. Em 2005 o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou charges de Kurt Westergaard (hoje aposentado e vivendo sob proteção policial) que satirizava o profeta Muhammad utilizando um turbante na forma de uma bomba; cinco anos depois o cartunista dinamarquês sofreu um ataque dentro de casa, e só não foi morto por um extremista, que carregava um machado, porque a polícia interveio a tempo.

O Islã, assim como ocorre no Cristianismo e em grande parte das instituições religiosas, não é um conjunto de doutrinas, práticas, ideias em uníssono. Há distensões, discordâncias, e um subproduto disso tudo é a existência de grupos radicais como Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) criado e ativo em território palestino; Al-Qaeda,“a base”, criada em 1980 para defender o Afeganistão da ocupação comunista soviética (e inicialmente com apoio estadunidense) e mundialmente conhecidos pela derrubada das torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001; Hezbollah, grupo xiita do Líbano, liderado pelo Xeque Hassan Nasrallah; Boko Haram, “a educação não islâmica é pecado”, fundada em 2002 na Nigéria e que tem empreendido uma série de violentos sequestros neste país; Estado Islâmico (EIIS) ativo na Síria e especialmente no Iraque pós ocupação ocidental, liderado pelo autodenominado “Califa” Abu Bakr al-Baghdadi, tem disseminado a ideia de formação de um “Califado Mundial”.

Como educadores, e no Colégio Atibaia estamos tratando do tema em sala de aula com os jovens do 7º ano do ensino fundamental, devemos sempre ter a preocupação em salientar que o Islã, por si só, não é terrorista e não se resume ao terror. Infelizmente, esta é a ideia difundida nas mídias, que sensacionalizam a violência de grupos como os citados anteriormente. As religiões, e incluindo as nossas raízes judaico-cristãs, possuem históricos que reúnem beleza, misticismo, bondade, mas também conflitos, intolerância e violência. Na aprendizagem da História devemos apontar tudo isso, mesmo que soe contraditório e confuso.

Professor Tiago Menta

Terror e Humor